14.37

Estive morto,
mas como se meu corpo
lutasse por mais um suspiro
a consciência recobro.

Esse é um grito de quem sabe
que logo mais, não muito tarde
se verá mais uma vez morto
ao fim desse poema, desse sopro.

E permanecerei assim,
por tempo indeterminado,
até o próximo espasmo,
até o próximo ensaio.

Morto,
inerte,
estático.

14.22

Sou inseguro,
não quero estar sozinho,
tenho medo do escuro,
não sei qual é o caminho.

Sou compulsivo,
afasto as pessoas de mim,
apago a luz para dormir,
não encontro sentido.

Sou preto e branco,
me sinto louco,
choro um pouco,
mas faço poesia.

Meio insano,
mas por debaixo do pano,
sou apenas mais um,
entre tantos.

Sou humano.

É o fim do mundo, por isso eu parei e sentei na sacada do meu apartamento. Além do fim do mundo, é também o fim do dia e o sol se despede com luzes alaranjadas no céu. Lá de cima vi algumas poucas pessoas que pareciam confusas, mas no geral as ruas estavam vazias. Não tem para onde correr, se esconder.
Rastros de fogo varrem o céu em um tom avermelhado e olhando para o outro lado é possível ver a lua, tão passiva quanto ela pode ser. É um show tão bonito e colorido que eu tenho que escrever.

Mas não tenho medo, ou lamento. A vida é assim, não é mesmo? Ela tem fim.

Glory Box

- não faça isso comigo. - pedi.
- você está fazendo isso consigo mesma. - ele respondeu.

Tudo silenciou, junto ao ar que se pôs para fora de meus pulmões e não se permitiu voltar para lá. Por um momento me senti completamente isolada de todo o resto, sem chão, sem tato, sem pulsação.

As vezes me proponho acreditar naquelas palavras eloquentes e bem construídas que me acusam de ser exagerada, sensível demais, preocupada demais, errada demais…

- me desculpa. - insisti. sem ao menos saber o motivo de eu estar me desculpando.
- não sei se posso. - ele respondeu.

Sempre me permito ser vencida. Sei que não fiz nada de errado, mas se estar certo é tão importante para ele eu aceito estar errada. Só queria que isso acabasse e que ele me deixasse cair em seus braços.

O silencio voltou, mas dessa vez ele veio para atenuar as batidas do meu coração e as lágrimas que falhei em tentar impedir que borrassem minha maquiagem. Me odeio por ser tão fraca, mas atendi ao impulso de tentar beijá-lo. Ele me empurrou, me rejeitou, de novo.

Vê-lo virar as costas para mim e ignorar todo aquele mar de frustração que eu expulsava dos meus olhos me fez correr para casa e tomar qualquer comprimido que encontrasse pela frente. Então deitei e esperei a dor sumir, o que não demorou muito.

Enquanto eu afundava lentamente no oceano e sentia a água entrando em meus pulmões sua mão me tocou e me puxou e juntos flutuamos no ar em um abraço intenso como a felicidade que tomou conta de mim. Seu rosto exibia uma expressão tão graciosa e seus braços estavam tão quentes que adormeci. Para sempre.

Sozinha, entre convulsões, no meu quarto escuro.

Poesias.

Entramos no meu apartamento sem ao menos acendermos as luzes. Estávamos sedentos um pelo outro. Entre beijos e apertos quase caímos no sofá da sala, demos de costas com uma parede e, enfim, chegamos ao quarto.

Nossas roupas eram obstáculos indesejados. Cada peça foi tirada, uma a uma, sem cerimônias.

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Explorei cada centímetro do seu corpo com ímpeto imensurável.

Fodemos. E fodemos bem. A noite parecia eterna e cada segundo inesquecível.

- Uau.

- É, eu sei…

Acendi a luz.

- Você quer maconha?

- Sim.

Ainda nus ela começou a ler alguns poemas que eu espalhei pelas paredes do meu quarto enquanto eu preparava o baseado.

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- Você disse que estava em crise criativa, passou? - Ela disse, tragando o baseado.

- Se passou? Minha mente está transbordando poesia.

E estava. Coloquei uma música, levantei a tela do computador e comecei a escrever um poema.

- Você quer escrever ou transar mais? - Ela disse com um olhar malicioso e hipnotizante.

- Que se foda a poesia.

E fodemos mais.

Expressões.

Seu olhar inflexível me assustava, me virava ao avesso e se deliciava com minha alma nua e crua. Eu estava atônito. Seu rosto estava próximo e o mundo, como quem observa, havia silenciado. Sua respiração era nítida e seus lábios magnéticos. As intensas batidas do meu coração incomodavam e o meu rosto queimava. Eu só queria entender o que se passava em sua mente.

- Eu só queria entender o que se passa em sua mente. - Eu disse.

Nossos corpos cederam e nossos lábios se tocaram.

- Que meu corpo me expressa melhor que eu mesma. - Ela respondeu.

E expressava.

Tic, tac.

Eram 2h da manhã e eu ouvia, entendiado, histórias sobre duas garotas que um amigo havia “pegado” naquela noite. Nada daquilo me interessava. Caminhávamos ao longo da Av. Paulista sem qualquer destino em mente e eu não ouvia metade das coisas que meu amigo dizia.

Olhei para o relógio. Eram 2h, 11min e 45s. Balancei a cabeça em um gesto de afirmação à algo que meu amigo disse que eu não ouvi. Olhei ao meu redor, impaciente, e parei.

Havia uma garota sentada de forma desajustada na calçada, maquiagem carregada, jaqueta de couro, all star cano alto, meia calça arrastão, um short escuro, uma garrafa de vinho barato na mão e lágrimas. Muitas lágrimas.

Que sentimentos a perturbavam? O que poderia, de tão ruim, ter acontecido? Ela levanta a cabeça e me vê, em pé, parado, olhando fixamente para ela. Meu amigo continua falando sem perceber que eu havia parado e as lágrimas carregadas de delineador continuam a cair. Tic. 2h, 11min e 46s.

Meu peito começa a apertar, meus olhos se enchem de lágrimas, me sinto impotente, me sinto inútil. Quero ajudar, quero que ela pare de chorar. Meu amigo para, olha para trás e vê que começo a andar na direção da garota.

Quão bonito será seu sorriso? Quantos sonhos, quanto potencial, quanta beleza poderiam se esconder por trás daquelas lágrimas? Me aproximo dela e meu amigo permanece parado sem entender o que acontece. Tac. 2h, 11min e 47s.

Paro em frente à ela, sento ao seu lado, olho nos seus olhos, limpo suas lágrimas com minha mão. E a vejo sorrir. Um sorriso grande o suficiente para me contagiar, me fazer feliz e desejar nunca mais vê-la chorar.

- Você está me ouvindo? - Diz meu amigo, enquanto empurra meu ombro e me tira do transe.

Ainda são 2h, 11min e 46s. Ainda estou em pé, ao lado do meu amigo, olhando para a garota que continua a chorar.

- Desculpa. - Digo, enquanto volto a andar.

Um ponto de cor no metrô.

Faz frio e só penso em chegar em casa, deitar na cama, fechar os olhos e sonhar acordado, como já faço, em pé, na estação, mas com mais intensidade, mais imersão e quem sabe, acreditar que possa ser realidade.

Escuto o sinal sonoro. As portas do metrô se abrem, aumento o volume da música, pressiono os fones no ouvido e vou. Ando com a cabeça baixa, mãos nos bolsos e alguns poucos desejos.

Levanto a cabeça, por um segundo, como se explorasse um novo mundo, não muito acolhedor, não muito bonito, mas com algo bonito. Alguém.

Seu caminhar delicado, seu vestido discreto, seus cachos, seu sorriso, seus olhos, seus olhares. Um ponto de cor, quem diria, no metrô.

Vejo-me em pé, parado, apenas olhando, apenas imaginando. E se… Nada. Os minutos passam, os olhares se cruzam, os olhares hesitam, os olhares voltam a mirar o chão.

Escuto o sinal sonoro. As portas do metrô se abrem, aumento o volume da música, pressiono os fones no ouvido e vou. Ando com a cabeça baixa, mãos nos bolsos, alguns poucos desejos e um arrependimento, por ter sido infinito, por tão pouco tempo.

A última vez que a vi.

- Qual é o sentido da vida? - Ela perguntou após me convencer a subir no topo do prédio onde ela morava.

- Está começando a garoar, vamos voltar para dentro? - Eu disse.

- Vamos lá, qual é o sentido da vida? - Ela perguntou sorrindo.

- Sentido é uma criação humana. A natureza não sabe o que é isso.

Ela segurou minhas mãos de frente para mim e andou de costas, me conduzindo, até o centro do prédio. O vento estava intenso a sessenta metros de altura e eu me encantava com o seu efeito nos cachos e na roupa dela.

- Veja, a chuva está ficando mais forte. - Ela disse com um sorriso carregado de uma repentina melancolia enquanto olhava para o céu. - Não é foda como sentimos o mundo? - Ela continuou.

- Cada um de nós é um mundo diferente. - Eu disse.

- Quantas histórias o mundo tem para contar? E aqui estamos nós, tão preocupados com nossos próprios umbigos.

- Nós somos os protagonistas de nossas próprias vidas.

A chuva se intensificou e desfez os cachos dela e o vento não movia mais o seu cabelo escuro, agora, colado no rosto. Seu olhar tristonho voltou à mim por alguns segundos, antes de mirar o chão.

- Como você está se sentindo? - Ela perguntou com a voz trêmula.

Eu não sabia o que dizer, eu não sabia como eu estava me sentindo, eu não sabia se havia o que sentir, não sabia dizer se eu era real. Então ela me abraçou.

- Não consigo ouvir seu coração… Não consigo ouvir seus pensamentos. - Ela disse.

Eu era real e entendi então que a insistência em subir ao topo do prédio nada tinha a ver com as luzes da avenida. Ela estava o tempo inteiro se segurando, esperando a chuva, para que pudesse então chorar, esperando que eu não notasse suas lágrimas misturadas à água da chuva.